Você trabalha ou só faz vídeo na internet?
Para quem já respondeu essa pergunta num aniversário de família e ficou com vontade de enfiar a cabeça no bolo.
Jho Hansen e Ju Nasasi
4/21/20264 min read


Já aconteceu de você estar explicando (pela terceira vez) o que faz e, de repente, vê no rosto da pessoa do outro lado o exato momento em que ela julga que o seu trabalho não é, bem, um trabalho de verdade. 🙄
Soa familiar? (Claro que sim.) Enquanto a economia da atenção movimenta bilhões e o Brasil abriga algo em torno de 10 milhões de criadores, boa parte dessas pessoas ainda precisa convencer as próprias famílias e amigos de que por trás de um vídeo existe jornada, técnica e (pasmem) horas. Muitas horas de trabalho!!!
A tecnologia trouxe profissões que, até bem pouco tempo atrás, nem existiam. A criação de conteúdo é uma delas, e o mercado já sabe disso. Mesmo que a sua tia ainda não. 🫠
Vamos falar de números?
Então senta, porque a pesquisa da ManyChat* realizada em 2025 com criadores trouxe dados que podem pesar o clima:
São cerca de 20 horas semanais só entre planejamento, filmagem, edição e gestão de comunidade. Isso sem contar os e-mails, as reuniões com marcas, a pesquisa de tendências e o networking que acontece fingindo que não é networking. Confere aí? Alguém, por favor, mostre esses números para aquela tia.
Agora, por que a palavra que você usa para se descrever importa?
Pode parecer ego, ou necessidade de validação alheia (embora validação seja boa e você mereça), mas a verdade é que a forma como a sociedade enxerga essa profissão escorrega, aos poucos, para dentro de quem a exerce e quando a gente internaliza a ideia de que o que faz não é “de verdade”, as consequências são bem concretas.
Quem não se vê como profissional cobra menos, estabelece menos limites, aceita condições piores. Quem não se vê como empresa não planeja receita, não investe em ferramentas, não pensa em sustentabilidade. E a profissão que não tem contornos claros dificilmente conquista as proteções legais e trabalhistas que deveria ter.
Mas tem uma consequência que aparece menos nas pesquisas e mais nas sessões de terapia: se chama esgotamento. Faz sentido?
O custo invisível de não se ver como empresa (isso pode ser sobre você)
Quando um criador ou criadora não se reconhece como empresa, os limites entre vida e trabalho simplesmente somem. Afinal, sem a estrutura mental de “sou um negócio”, não existe horário para encerrar. Não existe projeto que pode esperar. Não existem férias. A produção, se não bem cuidada, pode virar sua identidade. E a identidade, minha amiga, meu amigo, não tem fim de expediente. Acredita na gente!
O resultado aparece de formas que você talvez já reconheça: a culpa no domingo à tarde, porque você tá só assistindo uma coisa aleatória e acha que deveria tá programando a semana; ou naquele dia em que não conseguiu subir o post. A ansiedade quando os números caem. O relacionamento que foi cedendo espaço para a edição, pouco a pouco, até você perceber. E, por vezes, uma vontade intensa de parar tudo, seguida (contraditoriamente), pela culpa também de sequer pensar nisso!
Isso não é resultado só do volume de trabalho, mas principalmente da ausência de fronteira entre quem você é e o que você produz.
Empresas têm processos, folgas planejadas, chefes outros que dizem “isso não é prioridade agora”. Criadores que trabalham sozinhos ou em equipes enxutas tendem a ser mais auto-exigentes, convivendo com a sensação de estarem sempre atrasados em relação a si mesmos. Quem notifica isso acaba sendo o corpo ou as relações mais próximas.
Se profissionalizar não é perder a autenticidade. É construir a estrutura que te permite criar por muito mais tempo, sem se perder no caminho.
Um dos dados da pesquisa que mais nos chamou atenção foi o de que apenas 1 em cada 10 criadores se enxerga como uma empresa. Esse número não é só sobre CNPJ ou faturamento, mas também sobre quem consegue dizer não, cobrar o que merece, tirar uma semana de folga sem sentir que está traindo alguma coisa e ainda estar por aqui (saudável) daqui a cinco anos. Já pensou nisso?
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Tire alguns minutos offline, vá pra longe do celular, tv, qualquer distração. Pegue um caderninho que só você lê e responda honestamente. Não tem resposta certa. O objetivo é clareza, não julgamento — e se der vontade de chorar no meio, tudo bem também. 😅
1- Quando alguém pergunta o que você faz, qual palavra você usa? E por que essa e não outra?
Criador, influencer, produtor, empreendedor, empresário… cada escolha carrega uma crença sobre si mesmo que vale a pena olhar de frente.
2- Você consegue dizer, sem hesitar, quantas horas por semana trabalha na sua criação?
Se a resposta demorar ou vier vaga, talvez valha registrar por uma semana. Os números costumam surpreender, para o alto.
3- Existe alguma parte do que você faz que você não considera “trabalho de verdade”? De onde vem essa ideia?
Muitas vezes a gente internaliza o preconceito dos outros antes de perceber que ele não é nosso.
4- Quando foi a última vez que você descansou sem sentir que deveria estar produzindo? O que aconteceu dentro de você naquele momento?
Se a resposta demorar para vir (ou vier acompanhada de culpa) isso é um dado importante sobre como você está se tratando. Anota.
5- Se a sua atividade fosse um negócio com funcionários, o que você, como gestor ou gestora, exigiria de diferente da sua rotina atual?
A resposta quase sempre aponta para o que você está deixando de fazer — por você mesmo(a). Quer pensar nisso junto?
A mudança começa no momento em que você decide (apenas para você, antes de qualquer tia, antes de qualquer número de seguidores) que o que você faz tem valor, tem técnica e tem dignidade de profissão. E que você, como qualquer profissional, merece existir além do que produz.
Até a próxima. Com carinho,
Ju e Jho - fundadoras da Desvirtua
* Dados: ManyChat Creator Report, 2025. Contexto adicional: Exame, Mundo do Marketing (2024–2025).



