Sedentarismo cognitivo
o que está acontecendo com nosso cérebro?
Jho Hansen e Ju Nasasi
7/31/20264 min read


Atividade física nunca foi nosso forte. Jho, sempre tentava fugir da quadra, era a última a ser escolhida pro time e foi sentar em uma leg press com quase 40 anos. Ju, achava que academia era coisa de quem tem problema de autoestima e na sua primeira experiência de 10km de trilha mochilando, levou o dobro de tempo do seu grupo (bufando!). Mas, em compensação, sempre se orgulharam em colocar bem seus cérebros pra jogo.
Liam livro pra caramba, participavam de olimpíada de matemática, redação e praticavam a criatividade com arte e escrita, elaboravam teorias (malucas, na maioria das vezes) e se aprofundavam nos temas mais variados. Basicamente halterofilistas de cérebro (ui, que inteligentes elas). 🏋️♀️
Eis que a gente tá com dificuldade em terminar de ler a matéria de apenas cinco páginas da revista que insistimos em comprar na versão física - isso mesmo, revista em papel, caro leitor.
Estamos (como a maioria da população nos dias de hoje) cognitivamente sedentárias.
Na ausência de um termo que descrevesse esse fenômeno de simplificação de coisas complexas, tomamos a liberdade de criar o conceito de sedentarismo cognitivo. Ok, verdade seja dita, não criamos nada, só copiamos do Gregório Duvivier, que usou a expressão no podcast Calma Urgente, recentemente recomendada na nossa sessão Desvirtua Indica.
Sedentarismo cognitivo
Substantivo masculino; Hábito de evitar o esforço de pensar; Terceirização dos processos mentais que antes exigiam elaboração própria.
É isso que as ferramentas tecnológicas estão fazendo com a gente. Acreditamos (e podemos estar sendo ingênuas) que nem todas elas tenham sido desenhadas para tornar o cérebro humano preguiçoso. Mas, sem dúvida alguma, esse é um dos efeitos colaterais.
Quando pedimos para a inteligência artificial nos explicar sobre a guerra na Ucrânia, por exemplo, estamos terceirizando a leitura, a observação e a análise dos conteúdos sobre o tema. A IA entrega mastigadinho a informação, rápido e lindo. Mas e o conhecimento?
Conhecimento se constrói com tempo e dedicação, e esse imediatismo que a tecnologia trouxe para nossas vidas está pautando a maneira como aprendemos. O resultado disso é que só ficamos na superfície - um vídeo de 10 minutos, um resumo do ChatGPT e um carrossel de conceitos picotados bastam para que fiquemos com a sensação de que dominamos um assunto.
Como podemos compreender (ou achamos que podemos) conceitos muito complexos com poucas palavras, criamos uma auto-imagem de sabedoria, inteligência, cultura.
Hoje em dia ninguém precisa ler Freud para conhecer sua teoria. Agora, será que escutar um podcast com Christian Dunker, ler resumo de Totem e Tabu e assistir 20 vídeo-aulas de um curso de Psicanálise vai fazer as pessoas compreenderem realmente a Psicanálise?
Mas aí tem a moça de 450 mil seguidores que gravou um vídeo com postura super convicta, com cara de intelectual, regurgitando termos técnicos, falando que a Psicanálise é machista e pseudocientífica e você fica repetindo a fala dela como um papagaio desenfreado, já achando que tá dominando as abordagens da Psicologia.
Não é. Você só viu um vídeo de 30 segundos, se poupou de pensar e emitiu sua opinião.
Nós adoramos ter opinião. Quem não gosta?
Melhor ainda é ter razão. A sensação de estar certo(a) é maravilhosa. Só que ter uma visão particular das coisas exige trabalho.
Ler e duvidar. Dialogar e mudar de ideia. Aceitar estar errado. Tudo isso dói muito! Aprender é um processo doloroso por si só. Vai tentar aprender a falar mandarim pra você ver, vai doer pra caramba. Então é muito mais gostosinho escutar a influencer de 450 mil seguidores e pegar pra si o olhar dela.
Tudo isso tem uma explicação neurofisiológica: nosso cérebro prioriza o caminho mais curto, porque o objetivo dele é economizar energia. Ele sempre busca atalhos e, facilitando isso, hoje temos uma indústria inteira oferecendo atalhos o tempo todo. Não precisamos interpretar, comparar, sequer elaborar, porque alguém já fez isso tudo pra você.
É claro que além da biologia humana temos ainda uma explicação sociocultural: a lógica produtivista na qual estamos inseridos. Estamos focados no resultado e não no processo, já se deu conta? Qualquer tipo de produção, até mesmo a do conhecimento, se feita com rapidez e economia de recursos, melhor. E, assim, vamos deixando de memorizar números de telefone, não chegamos a lugar nenhum sem GPS, já não fazemos conta de cabeça. Pedimos pro ChatGPT decidir até mesmo qual filme assistir, montar cardápio otimizado com o que temos na geladeira. Paramos de ler artigos de opinião, não fazemos questão de saber sinônimos de palavras e acreditamos que vacina causa autismo.
Se você chegou até aqui e começou a cogitar que também esteja cognitivamente sedentário, isso é ótimo! Esse é o primeiro passo pra resolver o problema.
O maior risco do sedentarismo cognitivo não é deixar as pessoas menos inteligentes por si só; é fazê-las acreditar que continuam pensando, quando passaram apenas a consumir pensamentos produzidos por outras pessoas.
Então bora exercitar as curvas mais importantes do nosso corpo? Seguimos juntas nesse grupo aí do GymRats, digo.. serásse tem app pra isso? rs
E conta pra gente se esse fenômeno do sedentarismo também tá esbarrando por ai.

