O que as bets estão realmente vendendo?

A esperança de ganhar a Copa findou, mas a de mudar de vida permanece.

Jho Hansen e Ju Nasasi

7/31/20263 min read

a hand with a finger pointing at a red and white dice
a hand with a finger pointing at a red and white dice

Conta pra gente uma coisa, quando você pensa em uma casa de apostas, qual você acha que é o produto que ela oferece? Dinheiro? Entretenimento? Emoção? E se dissermos que pode ser ainda mais?

Durante a Copa do Mundo, a discussão parecia girar em torno da quantidade de anúncios de bets. Narradores comentando odds durante a transmissão, artistas, atletas e influenciadores compartilhando cupons de bônus. Criadores registrando seus ganhos em tempo real, enquanto rolava investigações sobre publicidade irregular. Foi difícil assistir a uma partida, fora da TV aberta, sem ser lembrado de que aquele também poderia ser um momento para apostar.

Mas, olhando com um pouco mais de calma, depois que a euforia futebolística cessou, podemos refletir que o assunto aqui é mais profundo. Quando falamos de divulgação massiva de bets, estamos falando de esperança comprimida em alguns segundos. Uma esperança que promete resolver hoje uma realidade dura e histórica do cidadão brasileiro.

Abre um parêntesis e vamos falar um pouco sobre nosso cérebro mais uma vez? Ai como elas amam esse assunto… 😅

Você sabe que esse órgão responde intensamente à antecipação de uma recompensa, né? É a expectativa que mobiliza e a possibilidade que captura nossa atenção. A incerteza, curiosamente, pode ser ainda mais estimulante do que a própria conquista. Ou seja, pensa aqui com a gente, muito mais do que ganhar algo de fato, a possibilidade de que “desta vez seja diferente” é o que nos prende.

OPA!

Será que a gente tá falando só de bets?

O debate sobre a lógica das mídias ser a mesma lógica dos jogos de azar já está ganhando um amplo espaço, afinal, vivemos cercados por tecnologias desenhadas para manter nossa atenção sempre voltada para a próxima recompensa. Não parece familiar? O próximo vídeo, a próxima notificação, o próximo like, a próxima compra, o próximo viral. E…a próxima aposta!

Mudam as interfaces, mas o mecanismo continua surpreendentemente parecido. Fecha parêntesis.

Talvez por isso a discussão sobre as bets tenha mobilizado tanto a gente durante a Copa. Afinal, foi um holofote aos dilemas que atravessam a economia da atenção.

Quem sustenta esse mercado? As plataformas, anunciantes, algoritmos e, também você, que cria qualquer tipo de conteúdo.

Nos últimos anos, influenciadores deixaram de ser apenas pessoas com número expressivo de seguidores e que divulgam grandes marcas. Já olhamos para criadores considerados nano e micro influenciadores como mediadores de confiança, também. E quando alguém que acompanhamos todos os dias recomenda um restaurante, um livro ou um tênis, dificilmente pensamos apenas em publicidade. É comum a gente pensar “se essa pessoa usa, talvez faça sentido para mim também.” E é exatamente essa confiança que anunciantes de qualquer porte compram.

Daí pra transformar essa história em uma discussão sobre responsabilidade individual é dois palitos e isso seria ignorar uma camada importante do problema. A maioria dos criadores (principalmente os de pequeno porte) vive em um mercado cada vez mais instável. Os algoritmos mudam, as receitas desaparecem, o alcance oscila e patrocínios se tornam cada vez mais disputados. Para muita gente, uma campanha dessas também chega como uma esperança.

E o que estamos tentando propor aqui é uma inversão no ângulo de análise pra expor um ecossistema em que plataformas disputam atenção, marcas compram confiança, criadores monetizam visibilidade e usuários buscam alguma sensação de controle sobre um futuro cada vez mais incerto. Todos nós participamos, de alguma forma, de um ambiente que transforma atenção em valor econômico.

E é justamente aí que mora o ponto mais delicado dessa conversa: ao aceitar esse tipo de publicidade o que exatamente estamos ajudando a normalizar?

Quando um criador recomenda um tênis, ele influencia um consumo. Quando recomenda uma bet, ele influencia um comportamento. E comportamentos têm consequências coletivas.

Segundo pesquisa realizada em Abril de 2026, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, hoje 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, nesse cenário, prometer que uma aposta pode ser a “virada de chave” conversa com vulnerabilidades muito concretas.

Será então que dizer “eu só divulguei” é suficiente? Quando a confiança vira moeda, ela deixa de ser apenas um ativo comercial e passa a ser uma responsabilidade. E olha que a gente nem falou de artistas e jogadores de grande influência, que movimentam bilhões e que sequer precisariam desse tipo de publicidades, com tantos impactos negativos. 🙄

No fim das contas, a questão não é exatamente se vale a pena aceitar uma campanha de bet, ou não, mas em qual mundo estamos ajudando a construir cada vez que transformamos esperança em estratégia de marketing?

Porque toda criação comunica um jeito de existir. E, às vezes, o conteúdo que mais performa também é o que mais reforça a lógica da qual dizemos querer escapar.

Enquanto acreditarmos que a solução para um problema criado por um sistema é apenas uma decisão individual, continuaremos correndo sem sair do lugar (aliás, correndo cada vez mais rápido 🫠 risos de desespero).

Com carinho,

Jho e Ju -  Fundadoras da Desvirtua.

Contato

Deseja transformar sua relação com o digital? Siga nossas redes ou entre em contato conosco.

Email

Telefone

contato@desvirtua.com

+55 11 912546705

© 2025. All rights reserved.

a green square button with a phone on it
a green square button with a phone on it