A internet é lugar de criança?
os riscos da infância como estratégia de crescimento
Jho Hansen e Ju Nasasi
7/31/20264 min read
Nos últimos meses muita gente ouviu falar da chamada “Lei Felca”, enquanto outros se assustaram ao descobrir que crianças que participam de publicidade nas redes sociais podem precisar de alvará judicial. Você sabia disso? Sem contar nas inúmeras notícias sobre processos e julgamentos que acusam plataformas digitais de terem sido desenhadas para viciar seus usuários, representando um perigo iminente aos jovens adolescentes.
À primeira vista, esses podem até parecer assuntos diferentes, mas como adoramos uma boa costura de temas, alinhavar essas histórias não será nada difícil. Então vamos falar hoje sobre preservação da infância, lucro desmedido e responsabilidade. Vem com a gente?
O que é a Lei Felca?
Também chamada de Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), surgiu em meio a debates iniciados pelas denúncias do influenciador Felca (Felipe Bressanim) sobre a “adultização” e exposição de crianças nas redes sociais. O assunto ganhou força e foi impulsionado no Congresso, sendo aprovado e transformado em lei no final de 2025. Seu foco é ampliar a responsabilidade das plataformas quando o assunto é segurança e exploração de menores na internet.
Entre os pontos centrais estão o fim da autoafirmação de idade (aqueles botões de “tenho mais de 18 anos”); a obrigação de vincular contas de menores de 16 anos a um responsável legal; o combate ao design viciante que proíbe para menores recursos como reprodução automática, rolagem infinita e sistemas de recompensa baseados em tempo de uso; no âmbito dos jogos e monetização, veta a venda de loot boxes por equipará-las a jogos de azar, e também proíbe a monetização ou impulsionamento de conteúdos que explorem menores de forma sexualmente sugestiva.
E o que o alvará tem a ver com isso?
Em medidas derivadas desta lei, a partir de agora, nenhuma plataforma pode monetizar ou impulsionar conteúdo que envolva crianças e adolescentes sem um alvará judicial. YouTube, Instagram, TikTok, Kwai, Twitch são obrigadas a verificar se existe uma autorização da Vara da Infância e da Juventude antes de qualquer centavo mudar de mão. Quem não tem o documento, tem o canal suspenso.
Na prática, é a primeira vez que alguém coloca um freio de verdade numa engrenagem que rodou por anos sem nenhum tipo de fiscalização.
A gente entende que isso mexe com muita coisa. Com famílias que construíram uma renda real em cima da imagem dos filhos (isso acontece mais do que você possa imaginar); com marcas que descobriram nos “influenciadores mirins” um canal de conexão absurdamente eficiente e com criadores que nunca tinham parado pra perguntar se aquele conteúdo estava servindo à criança ou usando ela.
Porque não estamos falando só de famílias que exploraram crianças de forma intencional e cruel. Estamos falando, muitas vezes, de adultos que acreditam que expor a rotina de uma criança é inofensivo, divertido, até bonito. Mas e o perigo para essas crianças e benefício das plataformas em cima de tudo isso, já parou pra pensar nos desdobramentos dessa pauta?
O novo petróleo da internet
Importante ressaltar que além do alvará, a lei proíbe o chamado “perfilamento” entre crianças e adolescentes, que usa dados pessoais e de comportamento para direcionar publicidade aos usuários.
Durante anos ouvimos que “dados são o novo petróleo”, acreditamos que hoje a matéria-prima mais valiosa da economia digital são os dados e, claro, a atenção.
Veja bem, as plataformas competem por isso, os anunciantes compram acesso a isso, os algoritmos são treinados para capturar, e, não raramente, crianças e adolescentes se tornam tanto consumidores quanto produtores desses recursos.
E o vício digital?
Vamos deixar essa reflexão ainda mais interessante? Nos Estados Unidos, grandes plataformas já foram condenadas sobre o design viciante (como rolagem infinita, notificações constantes e sistemas de recomendação), que são deliberadamente criados para aumentar permanência, frequência de uso e dependência comportamental.
Estamos começando, portanto, a dirigir os holofotes para o problema real, a discussão passa do usuários sem autocontrole para os sistemas construídos para explorar vulnerabilidades humanas previsíveis, especialmente as dos mais jovens.
E aqui mora uma das conexões: enquanto o julgamento nos EUA responsabiliza as empresas a posteriori por danos causados, a Lei Felca (ECA Digital) atua a priori, proibindo preventivamente as mesmas práticas consideradas danosas.
Por muito tempo, a conversa girou em torno de escolhas individuais: pais que deveriam monitorar melhor, jovens que deveriam usar menos telas, criadores que deveriam produzir conteúdo mais responsável… e não seremos hipócritas, é claro que tudo isso importa, mas é INSUFICIENTE!
Porque é necessário deixar de perguntar apenas como as pessoas usam a tecnologia e começar a perguntar como a tecnologia é desenhada para usar as pessoas.
Essa é uma mudança profunda que desloca o foco do comportamento individual para a arquitetura dos sistemas. E talvez seja justamente aí que esteja a conversa mais importante sobre infância, criatividade, autonomia e bem-estar digital nos próximos anos.
É importante monitorar o tempo que passamos online, outrora, mais relevante do que isso é compreender como e sobre quem lucra com o fato de não conseguirmos sair.
Caso queira saber mais sobre as Diretrizes da Lei Felca, ou como conseguir o Alvará de Publicidade Infantil, ou se só quiser desabafar e trocar figurinhas sobre essa barra que é gostar de rolar o feed, mas não deseja um apodrecimento cerebral, escreva pra gente! Será um prazer continuar esse papo.
Esse texto não foi escrito por I.A, pelo contrário, estudamos, selecionamos pautas relevantes, redigimos, revisamos e quinzenalmente colocamos uma nova edição no mundo com muito amor. Se acha que esse texto pode interessar a mais alguém encaminha e nos ajude nesse trabalho árduo de propagar mais conhecimento e reflexão sobre psicoeducação digital.
Com carinho,
Jho e Ju - fundadoras da Desvirtua

