A ilusão de fazer tudo ao mesmo tempo
Será que a multitarefa é uma necessidade real ou uma armadilha que nós mesmos construímos?
Jho Hansen e Ju Nasasi
7/31/20265 min read


Você está lendo este texto agora, mas aposto que, em algum momento dos últimos dois minutos, você checou uma notificação, pensou em responder uma mensagem ou abriu outra aba. Não leve isso como um julgamento, longe de nós, que também estamos na luta pra concluir tarefas, fechar abas e não nos afundar na areia movediça das redes sociais! Vivemos num tempo em que a atenção virou moeda rara, e nós, inconscientemente, fomos convencidos de que dividir essa moeda em mil pedaços é sinal de competência. Mas e se não for?
A multitarefa (ou multitasking pra quem gosta de gourmetizar nosso vocabulário), habilidade que todo currículo lista com orgulho, tem sido vendida como virtude do século XXI, mas a neurociência apresenta uma versão bem diferente. E achamos que vale a pena ouvi-la antes de se vangloriar de conseguir responder e-mails enquanto está em reunião.
O cérebro que não existe
Aqui vai a primeira verdade que as coleguinhas biólogas, antes de serem terapeutas da Desvirtua, compartilham: do ponto de vista evolutivo, o ser humano é mais apto a fazer uma coisa de cada vez do que várias ao mesmo tempo. O que chamamos de multitarefa é, na prática, uma troca rápida de atenção. E cada vez que a atenção muda de foco, o cérebro paga um custo.
O neurocientista Earl Miller, do MIT, é categórico quando diz que nossos cérebros “não são bons em fazer múltiplas coisas ao mesmo tempo”, pois cada vez que alternamos entre tarefas precisamos de um intervalo em que o cérebro descarta o contexto anterior e carrega o novo. Parece rápido, imperceptível, mas se acumula. Estudos da American Psychological Association mostram que esses custos de alternância podem reduzir a produtividade em até 40%. Quase metade do seu potencial cognitivo, evaporado na ILUSÃO de eficiência!
E não para por aí. Uma pesquisa conduzida pela Universidade da Califórnia em Irvine revelou que, após uma interrupção, levamos em média 23 minutos e 15 segundos para recuperar o foco pleno em uma tarefa. Ou seja, uma única notificação (aparentemente inofensiva) pode custar quase meia hora de concentração real. 🫠
E quem plantou essa semente? Se a multitarefa nos prejudica, por que insistimos nela? Por que sentimos, inclusive, uma espécie de culpa quando estamos fazendo apenas uma coisa?
Respostas no Silicon Valley
Os grandes produtos digitais como redes sociais, aplicativos de mensagem, plataformas de conteúdo foram construídos deliberadamente para capturar e fragmentar a atenção. Um design inteligente e intencional. O ex-presidente do Google, Eric Schmidt, disse uma vez que o objetivo das plataformas digitais é “consumir todo o tempo disponível do usuário”. Nir Eyal, no livro Hooked, detalha exatamente como as plataformas são projetadas para criar loops de hábitos compulsivos. A notificação que chega no momento certo, a rolagem infinita e a recompensa variável que imita uma caça-níquel.
Nós não nos tornamos multitarefa porque a vida exigiu, mas sim, porque nos ensinaram (com muita habilidade e muitos bilhões de dólares investidos) que ficar parado em uma única coisa é quase um desperdício. Ou seja, a hiperconectividade não está sanando necessidades humanas e sim criando-as.
O preço que pagamos em silêncio
O problema não é só de produtividade, pois pesquisadores da Universidade de Sussex descobriram que, pessoas que regularmente usam múltiplos dispositivos ao mesmo tempo, têm menor densidade de matéria cinzenta no córtex cingulado anterior - região do cérebro associada à empatia e ao controle emocional. Em outras palavras: o hábito de fragmentar a atenção pode literalmente mudar a estrutura do seu cérebro.
E ainda, quando o assunto é a falta de profundidade, estamos sempre em modo multitarefa, nunca mergulhamos de verdade em nada. Não numa conversa, não num problema complexo, não num momento de prazer. Ficamos na superfície de tudo, produtivos na aparência, mas vazios na essência.
Cal Newport, em seu influente livro Deep Work, argumenta que a capacidade de trabalho profundo, aquele estado de concentração intensa sem interrupções, é cada vez mais rara e, ao mesmo tempo, cada vez mais valiosa. Quem a preserva tem uma vantagem cognitiva absurda num mundo onde todo mundo está disperso.
A pergunta então se inverte: e se o diferencial competitivo do futuro não for fazer mais coisas ao mesmo tempo, mas sim conseguir fazer uma coisa de cada vez, completamente? 👀
Existe, claro, uma multitarefa legítima. Cozinhar enquanto ouve uma música, caminhar enquanto conversa ao telefone, analisar o GPS enquanto dirige. Quando uma das tarefas é automatizada (não exige atenção consciente) o cérebro consegue dividir recursos sem perda significativa. Isso é real, isso existe, e negá-lo seria desonesto.
Mas a multitarefa que o mundo corporativo e digital exige de nós não é essa. É a de responder mensagens durante uma reunião importante, checar e-mails enquanto escreve um relatório, alternar entre dez abas abertas em busca de um estado permanente de estar por dentro de tudo.
E aqui está a chave dessa compreensão, grande parte dessa demanda é fabricada. Quantas das mensagens que respondemos imediatamente precisavam mesmo ser respondidas imediatamente? Quantas reuniões consecutivas eram realmente necessárias? Estudos da McKinsey mostram que trabalhadores passam em média 28% da semana de trabalho gerenciando e-mails e não criando, resolvendo ou pensando de modo efetivo. Apenas administrando o fluxo de informação.
Construímos um sistema que gera falsa urgência e depois celebramos quem melhor consegue sobreviver a ela.
A resistência como ato político
Há algo quase subversivo em decidir fazer uma coisa de cada vez nos tempos atuais. Em fechar as abas, desligar notificações e estar completamente presente numa conversa sem verificar o celular.
Movimentos como o Slow Productivity, o Digital Minimalism e práticas de gestão assíncrona estão ganhando força como respostas racionais a um ambiente cognitivamente tóxico. Empresas que experimentam abolir reuniões desnecessárias e comunicação em tempo real compulsória já reportam aumento significativo na qualidade do trabalho e satisfação dos funcionários.
A questão não é abandonar a tecnologia, mas sim, recusar a narrativa de que estar disponível para tudo, o tempo todo é um ideal a ser perseguido.
Então, voltemos à pergunta original: precisamos mesmo ser multitarefa?
A resposta honesta é: às vezes sim, porém, na medida certa. Mas, na maioria das vezes, o que chamamos de necessidade é, na verdade, condicionamento. Estamos sendo treinados pelos algoritmos, pela cultura corporativa e pela ansiedade coletiva de não perder nada a acreditar que dividir a atenção é sinônimo de estar vivo, produtivo, relevante.
E se a maior habilidade do século XXI não for fazer tudo ao mesmo tempo e sim ter coragem de fazer uma coisa de verdade?
Feche uma aba. Respire. Termine de ler este parágrafo sem checar mais nada. Já é um bom começo!
Temos a série " Desvirtua Indica" em no nosso Instagram em que damos dicas de livros, filmes, músicas, podcasts e muito mais. Vem conferir.
Ah! Só não pode aproveitar mais de uma indicação ao mesmo tempo. 😅
Com carinho,
Jho e Ju - fundadoras da Desvirtua.
Referências:
APA (American Psychological Association) — perda de até 40% de produtividade Página oficial da APA sobre os custos cognitivos da multitarefa (estudo de Rubinstein, Meyer e Evans): 🔗 https://www.apa.org/topics/research/multitasking
Universidade de Sussex — menor densidade de matéria cinzenta no cérebro de multitarefas Artigo publicado na PLOS ONE (acesso aberto): 🔗 https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0106698
McKinsey Global Institute — 28% do tempo de trabalho gasto com e-mails Relatório original da McKinsey (The Social Economy, 2012): 🔗 https://www.mckinsey.com/industries/technology-media-and-telecommunications/our-insights/the-social-economy

